sexta-feira, 3 de setembro de 2010

OUTONOS!

O dia amanheceu amarelo como minha alma sem graça, sem viço, sem brilho. E eu não me importei com isso! Olhei no espelho e vi um sol distante e latente que um dia poderia vir... senti impaciência e desleixo pelo futuro. Não tinha futuro na verdade. Não naquele dia, naquela hora. A prestesa de um vazio invadiu o tempo cinzento e eu me escondi nas cobertas para não ter a possibilidade de me sentir bem. Não queria estar bem. Era mais fácil o narcísico sofrimento. Teria chance, teria palco e platéia! Então me abraçei. E, assim em posição fetal, senti-me plena, e um cheiro de vitória invadiu-me. Era de novo o útero ocupado e almejado. Era a espera, a obsessão, a burrice dos que planejam. Eu era a maldade! Era também o novo, e o divino ser! Que eu queria mais? Ah... queria muito...! Queria perfurar aquela carne, esticar aquele tempo, até o caos, até não poder mais. Até o não caber, ou seria cabimento? Não sei...! Queria algo que em mim, já não cabia, mas cabia no "outro", sem piedade minha. Eu estava o diabo e mirava o infinito celestial, coisa que seria para os anjos! Mas sabe como é! O diabo é assim mesmo! E eu me meti em todas! E de todas as maneiras consegui embriagar os corações de afeto, emoções e paz. Como? Sei lá... talvez o mundo goste é disso! Do odor, da moléstia, da incensatez e da vingança por não ter nascido essencialmente vil. Afinal somos puros enquanto bundinhas de bebês! E nessa inconstância de sensações e de tempo, fui esperar o crepúsculo que chegou mais endiabrado ainda. A sua cor belíssima queimava feito fogo aos amantes do ódio. Ele imperava sobre aquele demônio que afinal, parecia temer a algo! Chegou imperativo, arrogante e belo. Talvez fosse esta beleza que o tornava forte, como um Deus. E o diabo estremeceu e agachou-se abraçando-se também feito homem regredido e frágil... Então , em meio a esta penúria, deu-se o anoitecer estrelado por singelas luzes, que aprimoravam a certeza de um novo martírio com cheiro de dia seguinte....... 
              
                                                       Francila Alencar

MIRIAM...............

Foi no mês de junho que o vi pela primeira vez. Ele caminhava pelo trigal quando passei com minhas criadas, e ele estava só. O ritmo dos seus passos era diferente do de outros homens. Eu sustei meus passos por um momento, e levantei minha mão para saudá-lo, mas ele não voltou o rosto, nem olhou para mim. E eu o odiei. Fui arremessada de volta a mim mesma, e senti tanto frio como se estivesse em meio a uma nevasca. E estremeci. Naquela noite, eu o vi em meus sonhos. No mês de agosto tornei a vê-lo pela minha janela. Ele estava imóvel sentado à sombra do cipreste em meu jardim, imóvel como uma escultura de pedra. Olhei firme para ele, e minha alma estremeceu, pois ele era belo. Então vesti-me com trajes de damasco, e saí de minha casa e caminhei até ele. Terá sido minha solidão ou sua fragância que me atraiu para ele? Terá sido a fome de meus olhos que desejavam graça, ou terá sido sua beleza que alcançou a luz dos meus olhos? Caminhei até ele com meus trajes aromáticos e sandálias douradas, as sandálias que o capitão romano me dera. E quando me aproximei, eu lhe disse: - Bom dia para ti! Bom dia para ti Miriam! - disse ele. E olhou para mim, e seus olhos noturnos me viram como nenhum outro homem me vira. E subitamente eu estava como que despida, e tornei-me tímida. E então eu lhe disse : - Não queres vir à minha casa? - Já não estou na tua casa? - disse ele. Eu não sabia o que ele quis dizer na ocasião, mas agora sei. - Imploro-te que venhas à minha casa e compartilha do pão e do vinho comigo. - Por que me ordenas que seja teu hóspede? - Disse ele. - Imploro-te que venhas à minha casa. - e tudo que era céspede em mim e tudo que era céu em mim o chamavam. Então ele olhou para mim e disse : - Tens muitos amantes, contudo só eu te amo. Outros homens amam a si próprios perto de ti. Eu te amo em teu ser. Outros homens veem uma beleza em ti que se desvanecerá mais brevemente que seus próprios anos. Mas eu vejo em ti uma beleza que não se desvanecerá, e no outono dos teus dias, essa beleza não terá medo de se mirar no espelho, nem se ofenderá. Eu só amo o invisível em ti. Vai-te embora agora. Se este cipreste é teu e não me queres sentado à tua sombra, seguirei meu caminho. E eu chorei diante dele e disse-lhe : - Mestre vem à minha casa . Tenho incenso para acender por ti e uma bacia de prata para teus pés. Então ele se levantou e olhou para mim como as estações do ano olhariam para o campo, e sorriu. E tornou a dizer : - Todos os homens te amam por si próprios. Eu te amo por ti mesma. E assim ele se foi. Eu não sabia. Mas naquele dia o crepúsculo em seus olhos, matou o dragão em mim, e eu me tornei uma mulher, tornei-me Miriam, Miriam de Mijdel.

                                                  O encontro de Jesus e Maria Madalena
                                                             ( Kahlil Gibran)